18.5.07

dois anos


Às vésperas de completar dois aninhos de vida (caramba, como passa!), as pimentinhas estão virando duas mocinhas. É incrível como criança cresce nessa fase, como muda, como 'vira gente' de repente. De uma hora para a outra, minhas bebês não são mais bebês. São duas menininhas, duas criancinhas, duas criaturinhas sapecas, tagarelas e especiais que não páram um minuto, falam sem parar, brincam, brigam e têm vontade própria (e como têm!).
Comunicam-se maravilhosamente, as duas. Sabem dizer o que querem, expressar agrado e desagrado, manifestar uma opinião, uma vontade, uma contrariedade. Ana Luz já forma frases, repete tudo o que a gente fala. Um perigo, aliás, todo cuidado é pouco. Vira e mexe repete um palavrão, e quando a gente dá risada (quem é que consegue manter a seriedade?), abre um sorrisão daqueles, feliz da vida de estar sendo atração. Estrela vai construindo palavra por palavra, mas fala tão corretinho que dá vontade de engarrafar pra ouvir depois e mostrar pra ela quando crescer. Cismou com caco (macaco) e auau (cachorro), e repete o dia inteiro, sempre seguido de um biquinho que não dá pra resistir, é de chorar de tão fofo.
Dançam, adoram dançar. A propaganda do russo (quem tiver NET em casa vai saber do que estou falando) faz um sucesso danado aqui em casa. Elas param tudo o que estiverem fazendo pra dançar a musiquinha, sacudindo pra lá e pra cá, cheias de charme. E Ana Luz ainda repete, com direito a sotaque, no final: 'todo mundo!!'. A gente fica pra morrer.
Estão ficando cada vez mais independentes. Nos playgrounds, já sobem e descem dos brinquedos sozinhas. Ana Luz, que é mais cautelosa, quando está lá em cima do escorrega, chama: 'vem ti, mamãe!'. Mas se a gente vai pegar na mãozinha dela pra ajudar, ela sentencia: 'não! xozinha!'. Pode? Estrela, que desde pequenina é destemida, adora um balanço bem alto, é capaz de ficar horas sem querer sair. E gangorra, então? Esquece da vida, e solta uma gargalhada daquelas que só ela tem se a gente deixa ela 'presa' lá em cima, crente que ela vai ter medo. Pimenta com medo, onde já se viu?
Reconhecem todo mundo, chamam, sentem falta. Comece a cantar uma dessas musiquinhas em que você coloca o nome de alguém no meio da estória pra você ver onde se mete. Elas não descansam enquanto você não canta com TODOS aqueles que elas conhecem. É vovô, vovó Lili, vovó Rede, Lelé (bisavô), Éto (irmão mais velho), Sábio (segundo irmão), tio Kiss, tia Ana, tia Didi, tio Dudu, Mari, Júlia pitena, Júlia dândi (essas três, amiguinhas do prédio), e daí por diante. Além, é claro, de mamãe e papai, que esses são honorários e têm lugar garantido desde sempre. :O)
Comem, comem, comem. Caramba, como comem. Eu mesma fico besta de ver. E de tudo. Amam especialmente couve flor, brócolis, tomate, beterraba, macarrão (filhas de italiano, afinal), peixe, manga, banana, maçã, melancia, uva, suco de laranja, mingau e milho (cozido, comem na espiga mesmo e se divertem). Adoram sorvete.
São loucas por livrinhos (minhas filhas, afinal). É só a gente sentar por perto, distraído, que elas logo dão o bote: vêm correndo com um livrinho na mão, cheias de ordem: 'lê!'. É assim vão pegando todos os livrinhos da prateleira, um por um, até acabar. E quando acaba, e você, exaurido, está crente que vai ter um descanso, o golpe final: a fila recomeça, desde o primeiro livrinho, tudo de novo. Sim, padecer no paraíso. :O)
Quando começam a brincar juntas, é a coisa mais bonita de se ver. Ficam um tempão numa estorinha que só faz sentido no mundo delas. E adoram fazer palhaçada uma para a outra. Imitar. Vão brincando e gargalhando, cada vez mais alto. Uma corre pra pegar a outra. Uma rola por cima da outra. Uma puxa, a outra vai. Se abraçam, se beijam, se apertam. Quando vão comer, tomar banho ou qualquer outra coisa, experimenta tentar levar uma só pra ver. Não tem acordo. Ela não sossega enquanto não chamar a irmã pra ir junto, seja lá o que se for fazer. E se por acaso a irmã está dormindo e não pode ir, é uma lenga-lenga sem fim: 'cadê Teté?', 'cadê Naná?', e fica nessa cantilena até que a outra acorde e possa juntar-se ao grupo. Lindas, as duas. E a gente só olhando, cheios de baba, com lágrimas nos olhos. Mãe (e pai) é bicho emotivo, fazer o quê?
Brigam também. Disputam os brinquedos, o colo, o peito. Em geral se acertam na divisão, mas vira e mexe a coisa fica mais complicada e sai uma mordida pra cá, um beliscão pra lá, um empurrão do outro lado. Chororô de ambas, a que agrediu e a que foi agredida. Uma bronca básica, um tanto de colo para a que sofreu a agressão, e pronto, tudo resolvido. Logo estão elas a se entender outra vez, falando a língua que é só delas e que a gente não compartilha.
Ana Luz é vaidosa, adora prender o cabelo, colocar uma fita, um colarzinho, segurar bolsinha. Estrela é mais moleca, gosta mesmo é da farra, pega tudo e vai jogando no chão, fazendo bagunça.
Adoram contar degraus. Misturam todos os números, obviamente. Depois do dois, vem o sete, depois do três, o dez... mas tudo bem. Há ordem no caos, afinal.
Quando acordam, já saem falando, acordam de bom humor (nisso, definitivamente não puxaram a mim). Ana Luz abre os olhinhos, senta na cama e cumprimenta, com um sorriso de orelha a orelha: bom diiia!!. Estrela abre os olhinhos, se espreguiça gostoso e chama, toda dengosa: papaaaai!!.
Adoram praia. Se esbaldam na areia, fazem castelinhos, bichinhos, bolinhos. Jogam areia uma na outra, pegam água do mar e fazem a maior lambança. Curtem bater um papo à beira-mar, sentar as duas na beirinha e ficar sentindo as ondas molharem os pezinhos. E não dispensam um mergulho - bom, até dispensam, mas só se a água estiver muito gelada.
São loucas por banho. Vão as duas para a piscininha que pusemos para elas dentro do box e ficam lá, dando banho nos bichinhos, lavando as panelinhas, jogando água uma na outra, brincando de fazer e dar papá. Adoram o chuveirinho e, quando mamãe-pimenta se distrai e esquece aberto, é aquela lambança: água pelo banheiro todo.
São tão doces, tão tranquilas, tão divertidas. Temperamentais também, sabem o que querem e não deixam barato. Mas é assim mesmo, o equilíbrio da receita: doce com um ardido de pimenta.
Meus amores, amanhã vocês fazem dois aninhos. Assim mesmo, como vocês já aprenderam a fazer com as mãos. Por isso mesmo, amanhã mamãe vai estar muito ocupada amassando, abraçando e beijando vocês, e não vai ter tempo de vir nessa tal de internet para escrever a respeito. Então, faço hoje, adiantado mesmo, que não acredito nessas superstições.
Parabéns, minhas lindas. E obrigada, muito obrigada. Vocês fazem a cada dia a minha vida mais cheia de cor e sentido. Vocês fazem com que eu acorde a cada dia mais apaixonada e cheia de vontade de viver a vida. Vocês fazem com que eu deseje ser sempre melhor, para estar sempre à altura do que vocês merecem. E isso é tão especial que nem sei dizer.
Feliz aniversário, minhas doces pimentinhas. Mamãe (papai também) ama muito vocês, muito.
Sejam felizes, sempre.

4.5.07

carta às pimentas

A noite que passou foi a primeira noite de vocês longe de casa, longe de mim. Uma noite inteira sem mamadas, sem aconchegos, sem chorinhos ou grunhidos desamparados, sem a respiração doce e tranquila no quarto ao lado, ou juntinho de mim na cama.
Lá pelas 4 da manhã, eu, desavisada e desacostumada de uma noite de sono ininterrupto, despertei. Despertei e não resisti: mesmo sabendo do que me esperava, levantei-me e fui pé ante pé, quase apreensiva, até o quarto ao lado. Não acendi as luzes, mesmo sabendo que vocês não estavam ali e que eu não poderia acordá-las. Mesmo assim, entrei devagar e sem ruído e sentei-me ao lado de suas caminhas vazias, com lençóis tão arrumadinhos como nunca os vejo. Encostei a cabeça no colchão, senti o cheirinho de vocês e me senti invadida sem reservas por uma melancolia devastadora, uma vontade imensa de chorar. E chorei. Sem medo ou pudor, chorei. Um choro profundo, sentido, vindo do fundo do peito. Mas acalmem-se e não sofram: era um choro doído, mas não um choro de dor (sim, um paradoxo, mas é possível, um dia vocês entenderão do que falo). Era um choro desses que a gente sente invadir o peito num meio de tarde de chuva, sem tristeza, mas tão cheio de saudades. Sim, era isso. Um choro de saudades antecipadas, choro de quem sabe que daqui por diante vocês serão cada vez menos minhas. E que, sendo cada vez menos minhas, serão cada vez mais vocês mesmas, cada vez mais inteiras, cada vez mais duas lindas pessoinhas livres a descobrir, cada uma, o seu mundo. E de quem sabe também que cada passo que as torna mais livres e inteiras faz de mim também alguém mais inteiro e mais feliz. Por isso é que hoje chorei sabendo que vivia o paradoxo maior: que o aperto insano que me afogava o peito era parte indissociável de uma caminhada tão doce, um crescimento para o meu próprio bem. Apenas um passo pequenino dentro de uma estrada tão infinita como é a que temos pela frente. Eu, e vocês. Eu, como mãe, a amar-lhes sem limites ou reservas, a ensinar-lhes tudo o que sou e sei, a dar tudo de mim para fazer de vocês o que de melhor possam ou desejem ser. Vocês, como duas lindas criaturinhas livres e cheias de possibilidades, com um futuro imenso e colorido pela frente, a tatear um mundo tão cheio de ameaças, paradoxos e maravilhas.
Que amar é abrir os braços e oferecer a liberdade, disso eu já sabia. Só o que não sabia era que isso poderia ser assim, tão doído, e deixar a gente com esse nó tão apertado na garganta.
Hoje, vocês voltaram. Tão lindas, tão tranquilas, tão seguras. Passaram uma noite mais serena do que a minha. Eu as abracei forte, senti suas mãozinhas suaves a tocar-me o rosto, e quase não acreditei que minhas bebês estejam já tão crescidas. Assim, uma alegria e um susto.
Caramba. Bem que o tempo podia deixar que a gente o agarrasse. Nem que fosse só de vez em quando, só por um pouquinho.
É. Bem que seria bom.

PS: carta escrita em 29.05.07, domingo, às 20hs34min