4.5.07

carta às pimentas

A noite que passou foi a primeira noite de vocês longe de casa, longe de mim. Uma noite inteira sem mamadas, sem aconchegos, sem chorinhos ou grunhidos desamparados, sem a respiração doce e tranquila no quarto ao lado, ou juntinho de mim na cama.
Lá pelas 4 da manhã, eu, desavisada e desacostumada de uma noite de sono ininterrupto, despertei. Despertei e não resisti: mesmo sabendo do que me esperava, levantei-me e fui pé ante pé, quase apreensiva, até o quarto ao lado. Não acendi as luzes, mesmo sabendo que vocês não estavam ali e que eu não poderia acordá-las. Mesmo assim, entrei devagar e sem ruído e sentei-me ao lado de suas caminhas vazias, com lençóis tão arrumadinhos como nunca os vejo. Encostei a cabeça no colchão, senti o cheirinho de vocês e me senti invadida sem reservas por uma melancolia devastadora, uma vontade imensa de chorar. E chorei. Sem medo ou pudor, chorei. Um choro profundo, sentido, vindo do fundo do peito. Mas acalmem-se e não sofram: era um choro doído, mas não um choro de dor (sim, um paradoxo, mas é possível, um dia vocês entenderão do que falo). Era um choro desses que a gente sente invadir o peito num meio de tarde de chuva, sem tristeza, mas tão cheio de saudades. Sim, era isso. Um choro de saudades antecipadas, choro de quem sabe que daqui por diante vocês serão cada vez menos minhas. E que, sendo cada vez menos minhas, serão cada vez mais vocês mesmas, cada vez mais inteiras, cada vez mais duas lindas pessoinhas livres a descobrir, cada uma, o seu mundo. E de quem sabe também que cada passo que as torna mais livres e inteiras faz de mim também alguém mais inteiro e mais feliz. Por isso é que hoje chorei sabendo que vivia o paradoxo maior: que o aperto insano que me afogava o peito era parte indissociável de uma caminhada tão doce, um crescimento para o meu próprio bem. Apenas um passo pequenino dentro de uma estrada tão infinita como é a que temos pela frente. Eu, e vocês. Eu, como mãe, a amar-lhes sem limites ou reservas, a ensinar-lhes tudo o que sou e sei, a dar tudo de mim para fazer de vocês o que de melhor possam ou desejem ser. Vocês, como duas lindas criaturinhas livres e cheias de possibilidades, com um futuro imenso e colorido pela frente, a tatear um mundo tão cheio de ameaças, paradoxos e maravilhas.
Que amar é abrir os braços e oferecer a liberdade, disso eu já sabia. Só o que não sabia era que isso poderia ser assim, tão doído, e deixar a gente com esse nó tão apertado na garganta.
Hoje, vocês voltaram. Tão lindas, tão tranquilas, tão seguras. Passaram uma noite mais serena do que a minha. Eu as abracei forte, senti suas mãozinhas suaves a tocar-me o rosto, e quase não acreditei que minhas bebês estejam já tão crescidas. Assim, uma alegria e um susto.
Caramba. Bem que o tempo podia deixar que a gente o agarrasse. Nem que fosse só de vez em quando, só por um pouquinho.
É. Bem que seria bom.

PS: carta escrita em 29.05.07, domingo, às 20hs34min

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